Zilda Clara Marinho, uma homenagem final TOMO1
Não quero homenagear a morte. Mas parece tornar-se
frequente…
Foi a ultima vez que entrei no Lar. O cheiro a gente de
idade… perdoem-me… o cheiro a Lar incomoda-me profundamente. Muito mais do que
o cheiro que senti a primeira vez que entrei no Hospital de Santo António pela
mão da minha Mãe, era miúda pequena. E que agora já não sinto… qualquer tipo de
cheiro.
Não tive que voltar a entrar na “enfermaria”, onde uma mesa
cheia de cadernos infantis para desenhar sempre me revoltou. Onde consegui
perceber que a vida perde o sentido mas continua presa a um corpo que precisa
de cuidados… ou apodrece.
Talvez as minhas palavras sejam algo violentas…
Na última missa estávamos nós os quatros e mais dois de nós
e mais uma amiga e várias senhoras de cabelo branco. Não imagino quem fossem…
talvez simplesmente mulheres católicas com medo do fim.
O caixão estava fechado e tive pena de não a ver deitada,
imaculada… como às vezes parecem conseguir pôr os mortos por baixo de um véu
que esconde as imperfeições. Tive pena de não lhe tocar uma ultima vez, embora
mal lhe tenha tocado as ultimas vezes.
Fico feliz por ela ter deixado este fim infernal de vida.
Lamento imensamente que o tenha tido.
Não fiz o que lhe prometi… tomar conta dela até ao fim. Só
lho prometi uma vez e sem certeza. Odiei o Lar que escolheu, odiei o cheiro, os
cadernos de pintar, as faixas que amarravam os velhinhos às cadeiras para não
caírem, aquela sala cheia de seres ausentes que respiravam e que tanto o faziam
que o ar era pesado, as roupas que desleixadamente lhes vestiam, como se já não
interessasse.
Existiam uns seres de luz… poucos mas existiam. Familiares
que não desistiam. E também esses me faziam sentir culpada. Tu eras um deles e
por isso só lá consegui ir contigo. Felizmente visitaste-a muitas mais vezes do
que eu. E ainda bem que o fizeste pois eras o menino dos olhos dela. E
certamente, algures na sua demência, ela sentiu a tua presença.
Eramos cinco no cemitério, sem ninguém da família.
Despedi-me de um caixão fechado num cemitério dos subúrbios, rodeado de prédios
e cheio de lajes cinzentas, que não faz
dele o cemitério mais aprazível… mas em quase todas se viam flores frescas e
portanto um toque de amor.
Eu vou voltar aqui Zilda e vou pôr flores frescas para ti.
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